O fim do futebol brasileiro supremo

10 de abril de 2011 § Deixe um comentário

Quero fazer uma previsão do futuro: o futebol brasileiro campeão, como o conhecemos, irá acabar. Vou expor meus argumentos:

Quem ensina o brasileiro a jogar futebol não é o clube, é a rua. É a bola na rua, nos campos espalhados pelos bairros. Porém, cada vez mais nas ruas passam carros, ônibus, impedindo a bola de rolar. A violência urbana na mídia e a evolução eletrônica, das TVs aos games, prendem mais as crianças em casa do que antes, e a bola na rua rola cada vez menos. Já os campos de várzea estão dando lugares a casas populares, empreendimentos comerciais, shoppings, serviços de saúde, e já não irão mais ter bola rolando daqui para a frente.

Os clubes estão muito preocupados com a faixa dos 16 anos de idade, quando se pode prender um jogador a um contrato. Quem o ensina a chutar a bola, a dar os primeiros dribles? Isto não parece interessar aos clubes. Acho mais fácil encontrar equipes e torneios Sub-15 e Sub-17, atualmente . Vejo os clubes sem a preocupação de ensinar, apenas a de selecionar. Vejo times Sub-17 quase inteiros sendo desfeitos entre setembro e novembro, e refeitos novamente no começo do ano seguinte.

As idades de Sub-13 para baixo costumam ser aproveitadas por amantes do futebol, gente que costuma trabalhar de graça ou ganhando muito pouco dinheiro,  apenas por prazer, ou ainda por pedófilos que, secretamente, procuram estar próximos dessas crianças, gerando vários casos de pedofilia pouco ou muito divulgados, alguns dos quais chegam aos meus ouvidos.

Os clubes não trabalham com currículos organizado por idades. Os técnicos não criam uma lista das habilidades técnicas e táticas que seus jogadores precisam aprender em cada idade. E creio que apenas em clubes maiores dos que eu tive contato devem ter preparadores físicos bem formados, que sabe diferenciar um treinamento físico para Sub-15 de um para Sub-20.

Como os jogadores em formação Sub-13 facilmente encontram locais para treinar onde não se cobra nada, dificilmente uma Escola de Futebol conseguirá reunir bons profissionais e pedagogos do esporte num trabalho organizado de aprendizagem do futebol, cobrando uma mensalidade dos alunos que pague seus salários e suas despesas.

E como os clubes possuem uma preferência ENORME por ex-jogadores, treinadores que já possuam “nome” ou o bolso cheio de dinheiro, este mercado continuará fechado para quem estudou para ser professor de futebol, e desestimulará os formados em Educação Física a se pós-graduarem em futebol. Assim, no futuro, continuaremos vendo ex-jogadores que não terminaram o ensino fundamental pegando turmas de crianças para prescrever atividade física de aprendizagem esportivas para elas, não importando mais as diferenças entre o saber jogar e o saber ensinar a jogar.

Os poucos campos que ainda existem pelos bairros já possuem algum vereador ou outro político tomando conta, ou algum dono de terreno tentando fazê-lo parecer produtivo ou ocupado, e neles já há uma fila de ex-jogadores, alguns que nem chegaram a profissionais, ou amantes do futebol que já estão com suas equipes trabalhando nos campos, mas raramente alguém formado, que tenha um roteiro do que deve ensinar, que saiba com qual método ensinar, que queira planejar e que saiba por que deve avaliar seu ensino.

Às vezes recebo notícias de que o país X e o país Y estão investindo pesado nas categorias de base do futebol, e penso em como estas categorias estão desperdiçadas, no Brasil. Vêm notícias de Estados Unidos, Japão, Austrália e Nova Zelândia, recentemente o Uruguai… E nós, jogados à própria sorte.

Lembro de uma vez em que trabalhei num clube e sugeri ao diretor que adotássemos uma padrão de avaliação física periódica, para medir o quanto nosso treinamento físico estava dando resultados, me prontifiquei a montar a avaliação, e ele riu para mim e disse: “Não precisa disso, não! A gente vê daqui qual atleta não está rendendo…”.

Para mim, é impossível ver futuro assim.

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